Trabalho de Investigação
Tema: O Museu
Adélia Dias Faia
Parte I:
O que é um Museu.
Nesta parte serão dadas algumas definições de Museu, bem como incursão pelos conceitos do mesmo, na perspectiva de alguns investigadores.
Parte II:
Como e quando surge.
Na segunda parte é feita, uma espécie de resenha histórica até aos nossos dias, isto no que concerne à origem do Museu. Neste item abordar-se-ão de uma forma pouco aprofundada museus tanto nacionais e estrangeiros, vistos como “pilares” da cultura de um País.
Parte III:
O Museu do séc.XXI
A terceira e última parte, reflecte, no sentido de, perceber de que forma o Museu e o seu conteúdo servem de matéria à construção e reconstrução de identidades culturais. Demonstra algumas das funções sociais desempenhadas pelos museus na sociedade contemporânea como papel educativo, isto é, a forma como responsásseis se apropriam das colecções e objectos para transmitir a sua mensagem. Salienta-se aqui o papel da exposição como instrumento privilegiado na construção de discursos identitários, exposição como janela aberta ao conhecimento de determinada realidade cultural.
A conclusão e como o próprio nome indicam, não poderá ser, face ao que foi dito, senão uma definição de carácter reflexivo do que é, e o que representa para sociedade actual o Museu.
Parte I:
O que é um Museu?
Etimologicamente Museu vem do Grego Mouseion, templo dedicado às nove musas, inspiradoras das artes.
Durante muito tempo o vocábulo Museu era visto como uma forma de coligir todo o conhecimento humano, um testemunho da cultura da humanidade. Os Museus e o seu conteúdo são portanto guardiões da memória cultural de uma comunidade. Numa forma muito simplificada poder-se-á dizer que um Museu é um edifício do valor arquitectónico, uma instituição organizada, onde são acolhidas obras e/ou colecções, com propósito educacional ou estético, e provido de uma vasta equipa de profissionais que estudam, cuidam e expõem os objectos ao público.
No entanto já no séc.XIX o Museu era visto como uma «Instituição aberta ao público, democrática voltada para a memória do passado e para a construção do futuro» 1
Mas, apesar destas definições mais ou menos “ amigáveis”, convém aqui referir outras que apesar de “ultrapassadas”, são na mesma dignas de referência. Filippo Tomasi, fundador do Futurismo Italiano nos princípios do séc.XX (1920), refere-se aos Museus como cemitérios de objectos desconhecidos uns dos outros . Recíprocas ferocidades de artistas assassinando-se uns aos outros com golpes de formas e cores.
Theodor Adorno em 1967 descreve os Museus como um «Túmulo onde eram depositadas as obras de arte» 2, e ainda na perspectiva de Faucout Museu como espaço de confinamento e legitimação dos objectos. Da mesma forma Harrison (1977), descreve o Museu como «Instituição que existe algures entre os túmulos e armazéns, onde as coisas são sepultadas ou postas a leilão». 3
É obvio que no alvorecer do séc. XX, essas visões negativistas, em nada se ajustam ao Museu dos tempos actuais.
Um Museu é um «lugar de possíveis diálogos entre passado, presente e futuro. Um abrigo do velho e do novo, ele tem um papel cultural importante, além de abrigar os registos do tempo, é um veículo ao serviço do conhecimento e da informação que contribui para o desenvolvimento de sociedade» 4
É a partir dos anos 80 que a associação dos Museus avançou com uma definição mais ajustada ao Museu actual, como sendo uma «Instituição que recolhe, colecciona, documenta, preserva, exibe e interpreta as evidências materiais e informação associada para o benefício do público»
Charles Smith em 1989 referiu quatro características que definem um Museu:
- As colecções em exibição devem contribuir como elemento de estudo, contribuir para o conhecimento.
- As colecções ou obras não devem ser expostas de uma forma arbitrária, mas sim obedecer a um esquema lógico.
- Para benefício do público não é aconselhável que obras ou colecções sejam possuídas não tanto por privados, mas mais do que por uma pessoa.
- Deve primar pela sua fácil acessibilidade por parte dos diferentes públicos.
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1 GONÇALVES Lisbeth Rebollo- Entre Cenografias, pág.16
2 ADORNO, 1967 in Shelton, 1992
3 HARRISON, 1977 in Shelton, 1992
4 ALMANDRADE- Artista plástico, arquitecto, mestre em desenho urbano e poeta.
Parte II
Como e quando surge?
As raízes do Museu, encontram-se na antiguidade clássica, os templos das musas, com um conceito de Museu diferente do de hoje, já possuía colecções públicas de objectos de valor estético, religioso ou mágico. Contudo as primeiras instituições museológicas modernas só começaram a germinar a partir do séc.XIX, quando os museus de história natural começam a pouco e pouco a substituir os gabinetes de curiosidades. Mas é desde o inicio um espaço dedicado não só à memória e ao património, mas também um lugar para a fruição estética e para a educação do gosto.
Com a passagem da galeria particular a museu público, alterou-se o conceito sobre o que era uma obra de arte, passando de mero elemento decorativo, a objecto de valor que devia ser exposto.
Os primeiros Museus modernos contribuíram para celebrar a Nação e a sua glória. Assim o exterior arquitectónico em contraste com o seu conteúdo simbolizava a grandiosidade dessa Nação. Destaca-se no panorama Europeu o “Museu dos Museus” : o Louvre. É um dos mais importantes Museus do mundo, alberga cerca de 135 mil obras de arte, entre elas a enigmática Mona Lisa ou a sensual estátua grega da Vénus de Milo. Fundado em 1190 pelo Rei Philippe II, como uma fortaleza para defender Paris contra os ataques dos vikings, veio a transformar-se em palácio no séc.XVI, como moradia para a corte, e só em 1981 é que adquire a actual estética, com a polémica pirâmide de vidro. Visitar o Museu do Louvre não é só ver arte mas também apreciar a forma como cada indivíduo a absorve.5
5 «…Quando o ponteiro do relógio bate nove horas, as portas abrem-se, e a multidão nessa altura entra de forma desenfreada naquele que é um paraíso para os amantes da arte…»
«…São as expressões do rosto que deixam adivinhar as palavras que poderiam perturbar a paz do Louvre…» António Pedro Santos – noticiasmagazine, 20 de Abril de 2008
O ano de 1968 é crucial, principalmente devido a todas as transformações e desafios de arte contemporânea. As reflexões e experiencias que decorriam nessa altura no âmbito da disciplina museológica ajudaram a alargar a noção e funções sociais e culturais do Museu. Estes são agora vistos como monumentos não só pela sua arquitectura, mas também na sua preparação de mega eventos, que é o caso de exposições temporárias que circulam na Europa e na América: enquanto os Estados Unidos vêem Monet e Van Gogh, Paris Madrid e Nova York vêem Léger, Florença, Detroit e Chicago vêem Donatello. O perfil do Museu como instituição e as suas colecções até ai intocadas, são colocadas em questão, são questionados como instrumento cultural, e acusados de serem instituições passivas, voltadas para as classes sociais mais privilegiadas. Pretende-se arejar os museus e a sua arte. Neste contexto o centro Jeorges Pompidou é resposta directa aos anseios de 68. Reunir num mesmo espaço um Museu, uma biblioteca, um espaço reservado à criação industrial e arquitectural, e um outro à pesquisa musical, é revolucionário. Um dos arquitectos Renzo Pianod declara «ter querido acabar com a imagem de um edifício cultural que “assusta”. Ele é o sonho de uma relação extraordinariamente livre entre a arte e as pessoas, onde ao mesmo tempo se respira a cidade».
Entre os Museus da história além dos supracitados merecem igualmente destaque, o Museu do Prado, pelo admirável estado de conservação das obras, e pelo facto de estas não serem de origem reprovável, o chamado «Direito de conquista», e o Museu do Vaticano, cujo acervo é constituído por colecções independentes célebres, como por exemplo as paredes das câmaras e da Capela sistina, que constituem um autêntico museu da pintura Italiana do renascimento até Rafael e Miguel Ângelo.
No entanto não seria de bom-tom, não mencionar o Museu Nacional Soares dos Reis, o Museu Nacional dos Coches e o Museu Arqueológico de Barcelos.
A aproximação de Portugal à comunidade Europeia será crescente até a sua integração em 1986, trazendo novos desafios e novas oportunidades. Portugal não fica indiferente às mudanças socioculturais que decorrem um pouco por toda a Europa, vindo a reflectir-se obviamente nos Museus e na sua organização.
De referir também que o 25 de Abril de 1974, está na origem, ou leva ao aparecimento de uma conjuntura cultural que vai permitir que a partir dos anos 80 suja uma vaga de criadores que arrasta consigo uma outra vaga e agentes ligados às artes plásticas, designadamente e galeristas e críticos, que é o caso por exemplo de Alexandre Melo e João Pinharanda.
Na introdução de “ O Museu Imaginário”, André Malraux escreveu que:
«O séc.XIX viveu dos Museus, ainda vivemos deles, e esquecemos que impuseram ao espectador uma relação totalmente nova com a obra de arte»
Por exemplo para Thomas Hoving, primeiro director do Metropolita Museum of Arte, o Museu «possui um grande potencial não só como força estabilizadora e regenerativa da sociedade moderna, mas constitui também uma cruzada pela qualidade e pela excelência»
Mas no final do séc. XX, princípios o conceito de museu é alargado, não se restringindo apenas a um edifício, a uma construção fechada, com uma dinâmica (ou falta dela) incompatível com uma sociedade em mudança, mas sim a algo mais aberto, que pode ser uma aldeia, um bairro, ou a zona histórica de uma cidade. Assim a concentração de inaugurações, ampliação e mudanças do espaço, bem como o projecto do Museu de arte moderna (caso de Serralves), são indicadores de crescença na área das artes plásticas e consequentemente uma animação do mercado da arte.
É o começo de exposição de artistas estrangeiros em Portugal, e ainda a nossa presença em feiras de arte no estrangeiro (caso da Arco em Madrid, desde 1989 até aos dias de hoje).
Parte III:
O Museu do séc.XXI
Não será exagero dizer que o final do sec.xx representou um enorme progresso em termos institucionais: Serralves que abre a porta do diálogo entre a arte Portuguesa e a Internacional, como modelo actual de Museu contemporâneo possui um desenho de estilo construtivo, destacando-se como um cubo branco no meio do jardim que o circunda; o Centro Cultural de Belém, museu de nível e prestigio Internacional, detentor de acervo de excepcional qualidade. Isabel Pires de Lima ( Ministra da Cultura), vê a arte ali exposta como um factor de apetência turística e de desenvolvimento económico, mas sempre com a tónica no valor cultural que a arte assume por si mesma; o Museu do Chiado, antigo Museu de arte contemporânea, belo projecto de arquitectura, tem vindo a apostar numa outra vertente do trabalho museográfico, que é a realização de exposições monográficas e temáticas, assentes em trabalho crítico e histórico de investigação, e que tem contribuído para repensar alguns artistas ou momentos artísticos mais paradigmáticos da arte Portuguesa. A colecção do Museu do Chiado torna-se etapa obrigatória no panorama Museológico como referência da arte Portuguesa do séc.XIX até ao séc.XX, com a intenção de não deixar ao critério de barreiras cronológicas a actualização inevitável do seu acervo.
Fundamental também é o novo conceito de Museu, no que toca à arquitectura:
O Museu de arte contemporâneo tornou-se mais próximo do visitante ao se conceber na sua estrutura arquitectónica espaços para alimentação, compras ou investigação.
Os museus passam a ser monumentos, emblemas de identidade cultura l urbana, tornando-se ponto de referência central para a cultura, passam a ocupar um importante lugar na história da arquitectura como nova espécie de arte.
Na perspectiva de Ricardo Nicolau (escritor e curador, adjunto do Director do Museu de Serralves), sendo o Museu um espaço que recebe obras muito diversas, a sua arquitectura deve reflectir a sua necessidade de flexibilidade. Neste contexto Lisa Phillips, directora do New Museum em Nova York e em relação ao novo edifício diz que «É irónico: o fazer artístico tende a tornar-se menos monumental; os Museus pelo contrário tendem a ser obras cada vez mais ambiciosas de arquitectura». Para ela um Museu deve ser um espaço acolhedor, não deve ser impositivo, nem tão pouco intimidatório. Deve ter uma atmosfera onde as pessoas se sintam confortáveis, nem que seja só para passar tempo; um espaço onde se cruza fotografia, pintura, escultura, vídeo, performance…
Inês Moreira (Doutoranda em Curatorial /Knowledge no Goldsmiths College, London, arquitecta e Mestre em Arquitectura e Cultura Urbana), considera que o Museu do séc XXI, tende a afirmar-se pela sua programação, mais do que pelas suas colecções, repensando assim o seu papel cultural, social e educacional. A construção do edifício, torna-se algo de apetecível para muitos arquitectos, pois podem encontrar aqui uma grande oportunidade autoral, exploraram plasticamente morfologias, criam imagens fortes, que se oferecem assim para mediatização das cidades, dos coleccionadores edas instituições. No entanto um museu, não é só o edifício, é também a sua colecção em conjunção com a cidade que nele circula. Para Inês, seria de igual modo fundamental, que para além do confronto com o projecto do edifício a que temos acesso, termos igualmente acesso a conceitos, e a toda uma dinâmica que este por detrás do próprio projecto de cada museu, como contexto, situação, história…
Verifica-se um défice de informação.
A este propósito é de referir que para Inês Moreira é mais importante todo o processo que está por detrás de um projecto, do que propriamente a materialização do mesmo projecto.
Para João Pinharanda (Director artístico do museu de arte contemporânea de Elvas), um museu afirma-se pelos visitantes que lá vão.
Sherman e Rogoff afirma que as estratégias de exposição adoptadas pelos Museus oscilam entre o educar e o distrair, se bem que, a educação se apresenta como prioridade maior, o que, às vezes isso é difícil de conseguir pois a dicotomia histórica entre a arte associada ao prazer e artefacto ligado à função educativa constitui um obstáculo difícil de ultrapassar.
Segundo Angela Blanco duas questões se põem aos Museus no que diz respeito à organização de uma exposição: «Por que e para quem expõem os Museus?», ficando condicionados à quantidade e o tipo de objectos a expor. A formalidade das exposições move-se entre o dar a conhecer a importância de alguns momentos da história e da cultura manifestada pela comunidade e entre a importância das artes no seio da sociedade.
Sendo o Museu actual um espaço onde a obra sai da parede e do pedestal para ocupar o chão, a exposição/ exibição passa a constituir um exercício predominante do mesmo. Para o sucesso da função museológica, é quase que fundamental a organização expositiva, que para além de se orientar para a perspectiva da educação massificada, verifica-se portanto uma relação mais estreita entre a função expositiva dos Museus e a sua função pedagógica.
Conclusão:
Mais importante num museu não é o que vemos, mas o modo como vemos, não do que se faz no Museu, mas do que se faz com o Museu.
Trata-se de “educar com Museu”, no sentido de parceria, algo que se faz junto.
Se a história, com forma de conhecimento procura estudar a realidade histórica para promover o desenvolvimento dos homens, não faria sentido o Museu como guardião de parte desse conhecimento estar separado dessa realidade, que é a acção educativa a partir das exposições, pois a sua função como agente social, é evocar a memória, assim como a arte e a imaginação, com a responsabilidade de promover a consciência histórica, de forma a encaminhar ao entendimento da construção, usos e reciclagem da memória e do conhecimento. Se vivemos num pais que tem como prioridade a educação, não se pode ignorar a importância do papel do Museu nesse campo. É principalmente na sua acção cultural que se encontra a possibilidade de ser educativo.
Os museus são casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos e pensamentos, são instituições que ganham corpo através de cores, imagens, formas e sons. Os Museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes…
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Bibliografia:
BLANCO, A.G(1994)- Didáctica de l Museo, el descobrimento de los objectos. Madrid: Ediciones
de la Torre
CHOUGNET, Jean François et ali (2007) – Museu Berardo um roteiro.Thames e Hudson: London
GONÇALVES, Lisbeth Rebollo Gonçalves(2004) – Entre cenografias. Editora da Universidade de S. Paulo
MAGALHÃES, Fernando (2005) – Museus, Património e Identidade: Instituto Politécnico de Leiria
MELO, Alexandre (2007) – Arte e artistas em Portugal: Instituto Camões
“Ípsilon”, O Público, 7/03/2008.
SANTOS, António Pedro – “Expressões de Arte”, Noticias magazine, 20/04/2008.
“Ípsilon”, O Público, 25/04/2008.
Lugares da Web:
www.apagina.pt- 20-04-2008
www.cultulgest.pt/derivas-20-04-2008
www.minom.icom.org-20-04-2008
wwwartecapital.net/perspectivas- 29-06-2008
www.artecapital.net/perspectivas-29-06-2008
Tema: O Museu
Adélia Dias Faia
Parte I:
O que é um Museu.
Nesta parte serão dadas algumas definições de Museu, bem como incursão pelos conceitos do mesmo, na perspectiva de alguns investigadores.
Parte II:
Como e quando surge.
Na segunda parte é feita, uma espécie de resenha histórica até aos nossos dias, isto no que concerne à origem do Museu. Neste item abordar-se-ão de uma forma pouco aprofundada museus tanto nacionais e estrangeiros, vistos como “pilares” da cultura de um País.
Parte III:
O Museu do séc.XXI
A terceira e última parte, reflecte, no sentido de, perceber de que forma o Museu e o seu conteúdo servem de matéria à construção e reconstrução de identidades culturais. Demonstra algumas das funções sociais desempenhadas pelos museus na sociedade contemporânea como papel educativo, isto é, a forma como responsásseis se apropriam das colecções e objectos para transmitir a sua mensagem. Salienta-se aqui o papel da exposição como instrumento privilegiado na construção de discursos identitários, exposição como janela aberta ao conhecimento de determinada realidade cultural.
A conclusão e como o próprio nome indicam, não poderá ser, face ao que foi dito, senão uma definição de carácter reflexivo do que é, e o que representa para sociedade actual o Museu.
Parte I:
O que é um Museu?
Etimologicamente Museu vem do Grego Mouseion, templo dedicado às nove musas, inspiradoras das artes.
Durante muito tempo o vocábulo Museu era visto como uma forma de coligir todo o conhecimento humano, um testemunho da cultura da humanidade. Os Museus e o seu conteúdo são portanto guardiões da memória cultural de uma comunidade. Numa forma muito simplificada poder-se-á dizer que um Museu é um edifício do valor arquitectónico, uma instituição organizada, onde são acolhidas obras e/ou colecções, com propósito educacional ou estético, e provido de uma vasta equipa de profissionais que estudam, cuidam e expõem os objectos ao público.
No entanto já no séc.XIX o Museu era visto como uma «Instituição aberta ao público, democrática voltada para a memória do passado e para a construção do futuro» 1
Mas, apesar destas definições mais ou menos “ amigáveis”, convém aqui referir outras que apesar de “ultrapassadas”, são na mesma dignas de referência. Filippo Tomasi, fundador do Futurismo Italiano nos princípios do séc.XX (1920), refere-se aos Museus como cemitérios de objectos desconhecidos uns dos outros . Recíprocas ferocidades de artistas assassinando-se uns aos outros com golpes de formas e cores.
Theodor Adorno em 1967 descreve os Museus como um «Túmulo onde eram depositadas as obras de arte» 2, e ainda na perspectiva de Faucout Museu como espaço de confinamento e legitimação dos objectos. Da mesma forma Harrison (1977), descreve o Museu como «Instituição que existe algures entre os túmulos e armazéns, onde as coisas são sepultadas ou postas a leilão». 3
É obvio que no alvorecer do séc. XX, essas visões negativistas, em nada se ajustam ao Museu dos tempos actuais.
Um Museu é um «lugar de possíveis diálogos entre passado, presente e futuro. Um abrigo do velho e do novo, ele tem um papel cultural importante, além de abrigar os registos do tempo, é um veículo ao serviço do conhecimento e da informação que contribui para o desenvolvimento de sociedade» 4
É a partir dos anos 80 que a associação dos Museus avançou com uma definição mais ajustada ao Museu actual, como sendo uma «Instituição que recolhe, colecciona, documenta, preserva, exibe e interpreta as evidências materiais e informação associada para o benefício do público»
Charles Smith em 1989 referiu quatro características que definem um Museu:
- As colecções em exibição devem contribuir como elemento de estudo, contribuir para o conhecimento.
- As colecções ou obras não devem ser expostas de uma forma arbitrária, mas sim obedecer a um esquema lógico.
- Para benefício do público não é aconselhável que obras ou colecções sejam possuídas não tanto por privados, mas mais do que por uma pessoa.
- Deve primar pela sua fácil acessibilidade por parte dos diferentes públicos.
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1 GONÇALVES Lisbeth Rebollo- Entre Cenografias, pág.16
2 ADORNO, 1967 in Shelton, 1992
3 HARRISON, 1977 in Shelton, 1992
4 ALMANDRADE- Artista plástico, arquitecto, mestre em desenho urbano e poeta.
Parte II
Como e quando surge?
As raízes do Museu, encontram-se na antiguidade clássica, os templos das musas, com um conceito de Museu diferente do de hoje, já possuía colecções públicas de objectos de valor estético, religioso ou mágico. Contudo as primeiras instituições museológicas modernas só começaram a germinar a partir do séc.XIX, quando os museus de história natural começam a pouco e pouco a substituir os gabinetes de curiosidades. Mas é desde o inicio um espaço dedicado não só à memória e ao património, mas também um lugar para a fruição estética e para a educação do gosto.
Com a passagem da galeria particular a museu público, alterou-se o conceito sobre o que era uma obra de arte, passando de mero elemento decorativo, a objecto de valor que devia ser exposto.
Os primeiros Museus modernos contribuíram para celebrar a Nação e a sua glória. Assim o exterior arquitectónico em contraste com o seu conteúdo simbolizava a grandiosidade dessa Nação. Destaca-se no panorama Europeu o “Museu dos Museus” : o Louvre. É um dos mais importantes Museus do mundo, alberga cerca de 135 mil obras de arte, entre elas a enigmática Mona Lisa ou a sensual estátua grega da Vénus de Milo. Fundado em 1190 pelo Rei Philippe II, como uma fortaleza para defender Paris contra os ataques dos vikings, veio a transformar-se em palácio no séc.XVI, como moradia para a corte, e só em 1981 é que adquire a actual estética, com a polémica pirâmide de vidro. Visitar o Museu do Louvre não é só ver arte mas também apreciar a forma como cada indivíduo a absorve.5
5 «…Quando o ponteiro do relógio bate nove horas, as portas abrem-se, e a multidão nessa altura entra de forma desenfreada naquele que é um paraíso para os amantes da arte…»
«…São as expressões do rosto que deixam adivinhar as palavras que poderiam perturbar a paz do Louvre…» António Pedro Santos – noticiasmagazine, 20 de Abril de 2008
O ano de 1968 é crucial, principalmente devido a todas as transformações e desafios de arte contemporânea. As reflexões e experiencias que decorriam nessa altura no âmbito da disciplina museológica ajudaram a alargar a noção e funções sociais e culturais do Museu. Estes são agora vistos como monumentos não só pela sua arquitectura, mas também na sua preparação de mega eventos, que é o caso de exposições temporárias que circulam na Europa e na América: enquanto os Estados Unidos vêem Monet e Van Gogh, Paris Madrid e Nova York vêem Léger, Florença, Detroit e Chicago vêem Donatello. O perfil do Museu como instituição e as suas colecções até ai intocadas, são colocadas em questão, são questionados como instrumento cultural, e acusados de serem instituições passivas, voltadas para as classes sociais mais privilegiadas. Pretende-se arejar os museus e a sua arte. Neste contexto o centro Jeorges Pompidou é resposta directa aos anseios de 68. Reunir num mesmo espaço um Museu, uma biblioteca, um espaço reservado à criação industrial e arquitectural, e um outro à pesquisa musical, é revolucionário. Um dos arquitectos Renzo Pianod declara «ter querido acabar com a imagem de um edifício cultural que “assusta”. Ele é o sonho de uma relação extraordinariamente livre entre a arte e as pessoas, onde ao mesmo tempo se respira a cidade».
Entre os Museus da história além dos supracitados merecem igualmente destaque, o Museu do Prado, pelo admirável estado de conservação das obras, e pelo facto de estas não serem de origem reprovável, o chamado «Direito de conquista», e o Museu do Vaticano, cujo acervo é constituído por colecções independentes célebres, como por exemplo as paredes das câmaras e da Capela sistina, que constituem um autêntico museu da pintura Italiana do renascimento até Rafael e Miguel Ângelo.
No entanto não seria de bom-tom, não mencionar o Museu Nacional Soares dos Reis, o Museu Nacional dos Coches e o Museu Arqueológico de Barcelos.
A aproximação de Portugal à comunidade Europeia será crescente até a sua integração em 1986, trazendo novos desafios e novas oportunidades. Portugal não fica indiferente às mudanças socioculturais que decorrem um pouco por toda a Europa, vindo a reflectir-se obviamente nos Museus e na sua organização.
De referir também que o 25 de Abril de 1974, está na origem, ou leva ao aparecimento de uma conjuntura cultural que vai permitir que a partir dos anos 80 suja uma vaga de criadores que arrasta consigo uma outra vaga e agentes ligados às artes plásticas, designadamente e galeristas e críticos, que é o caso por exemplo de Alexandre Melo e João Pinharanda.
Na introdução de “ O Museu Imaginário”, André Malraux escreveu que:
«O séc.XIX viveu dos Museus, ainda vivemos deles, e esquecemos que impuseram ao espectador uma relação totalmente nova com a obra de arte»
Por exemplo para Thomas Hoving, primeiro director do Metropolita Museum of Arte, o Museu «possui um grande potencial não só como força estabilizadora e regenerativa da sociedade moderna, mas constitui também uma cruzada pela qualidade e pela excelência»
Mas no final do séc. XX, princípios o conceito de museu é alargado, não se restringindo apenas a um edifício, a uma construção fechada, com uma dinâmica (ou falta dela) incompatível com uma sociedade em mudança, mas sim a algo mais aberto, que pode ser uma aldeia, um bairro, ou a zona histórica de uma cidade. Assim a concentração de inaugurações, ampliação e mudanças do espaço, bem como o projecto do Museu de arte moderna (caso de Serralves), são indicadores de crescença na área das artes plásticas e consequentemente uma animação do mercado da arte.
É o começo de exposição de artistas estrangeiros em Portugal, e ainda a nossa presença em feiras de arte no estrangeiro (caso da Arco em Madrid, desde 1989 até aos dias de hoje).
Parte III:
O Museu do séc.XXI
Não será exagero dizer que o final do sec.xx representou um enorme progresso em termos institucionais: Serralves que abre a porta do diálogo entre a arte Portuguesa e a Internacional, como modelo actual de Museu contemporâneo possui um desenho de estilo construtivo, destacando-se como um cubo branco no meio do jardim que o circunda; o Centro Cultural de Belém, museu de nível e prestigio Internacional, detentor de acervo de excepcional qualidade. Isabel Pires de Lima ( Ministra da Cultura), vê a arte ali exposta como um factor de apetência turística e de desenvolvimento económico, mas sempre com a tónica no valor cultural que a arte assume por si mesma; o Museu do Chiado, antigo Museu de arte contemporânea, belo projecto de arquitectura, tem vindo a apostar numa outra vertente do trabalho museográfico, que é a realização de exposições monográficas e temáticas, assentes em trabalho crítico e histórico de investigação, e que tem contribuído para repensar alguns artistas ou momentos artísticos mais paradigmáticos da arte Portuguesa. A colecção do Museu do Chiado torna-se etapa obrigatória no panorama Museológico como referência da arte Portuguesa do séc.XIX até ao séc.XX, com a intenção de não deixar ao critério de barreiras cronológicas a actualização inevitável do seu acervo.
Fundamental também é o novo conceito de Museu, no que toca à arquitectura:
O Museu de arte contemporâneo tornou-se mais próximo do visitante ao se conceber na sua estrutura arquitectónica espaços para alimentação, compras ou investigação.
Os museus passam a ser monumentos, emblemas de identidade cultura l urbana, tornando-se ponto de referência central para a cultura, passam a ocupar um importante lugar na história da arquitectura como nova espécie de arte.
Na perspectiva de Ricardo Nicolau (escritor e curador, adjunto do Director do Museu de Serralves), sendo o Museu um espaço que recebe obras muito diversas, a sua arquitectura deve reflectir a sua necessidade de flexibilidade. Neste contexto Lisa Phillips, directora do New Museum em Nova York e em relação ao novo edifício diz que «É irónico: o fazer artístico tende a tornar-se menos monumental; os Museus pelo contrário tendem a ser obras cada vez mais ambiciosas de arquitectura». Para ela um Museu deve ser um espaço acolhedor, não deve ser impositivo, nem tão pouco intimidatório. Deve ter uma atmosfera onde as pessoas se sintam confortáveis, nem que seja só para passar tempo; um espaço onde se cruza fotografia, pintura, escultura, vídeo, performance…
Inês Moreira (Doutoranda em Curatorial /Knowledge no Goldsmiths College, London, arquitecta e Mestre em Arquitectura e Cultura Urbana), considera que o Museu do séc XXI, tende a afirmar-se pela sua programação, mais do que pelas suas colecções, repensando assim o seu papel cultural, social e educacional. A construção do edifício, torna-se algo de apetecível para muitos arquitectos, pois podem encontrar aqui uma grande oportunidade autoral, exploraram plasticamente morfologias, criam imagens fortes, que se oferecem assim para mediatização das cidades, dos coleccionadores edas instituições. No entanto um museu, não é só o edifício, é também a sua colecção em conjunção com a cidade que nele circula. Para Inês, seria de igual modo fundamental, que para além do confronto com o projecto do edifício a que temos acesso, termos igualmente acesso a conceitos, e a toda uma dinâmica que este por detrás do próprio projecto de cada museu, como contexto, situação, história…
Verifica-se um défice de informação.
A este propósito é de referir que para Inês Moreira é mais importante todo o processo que está por detrás de um projecto, do que propriamente a materialização do mesmo projecto.
Para João Pinharanda (Director artístico do museu de arte contemporânea de Elvas), um museu afirma-se pelos visitantes que lá vão.
Sherman e Rogoff afirma que as estratégias de exposição adoptadas pelos Museus oscilam entre o educar e o distrair, se bem que, a educação se apresenta como prioridade maior, o que, às vezes isso é difícil de conseguir pois a dicotomia histórica entre a arte associada ao prazer e artefacto ligado à função educativa constitui um obstáculo difícil de ultrapassar.
Segundo Angela Blanco duas questões se põem aos Museus no que diz respeito à organização de uma exposição: «Por que e para quem expõem os Museus?», ficando condicionados à quantidade e o tipo de objectos a expor. A formalidade das exposições move-se entre o dar a conhecer a importância de alguns momentos da história e da cultura manifestada pela comunidade e entre a importância das artes no seio da sociedade.
Sendo o Museu actual um espaço onde a obra sai da parede e do pedestal para ocupar o chão, a exposição/ exibição passa a constituir um exercício predominante do mesmo. Para o sucesso da função museológica, é quase que fundamental a organização expositiva, que para além de se orientar para a perspectiva da educação massificada, verifica-se portanto uma relação mais estreita entre a função expositiva dos Museus e a sua função pedagógica.
Conclusão:
Mais importante num museu não é o que vemos, mas o modo como vemos, não do que se faz no Museu, mas do que se faz com o Museu.
Trata-se de “educar com Museu”, no sentido de parceria, algo que se faz junto.
Se a história, com forma de conhecimento procura estudar a realidade histórica para promover o desenvolvimento dos homens, não faria sentido o Museu como guardião de parte desse conhecimento estar separado dessa realidade, que é a acção educativa a partir das exposições, pois a sua função como agente social, é evocar a memória, assim como a arte e a imaginação, com a responsabilidade de promover a consciência histórica, de forma a encaminhar ao entendimento da construção, usos e reciclagem da memória e do conhecimento. Se vivemos num pais que tem como prioridade a educação, não se pode ignorar a importância do papel do Museu nesse campo. É principalmente na sua acção cultural que se encontra a possibilidade de ser educativo.
Os museus são casas que guardam e apresentam sonhos, sentimentos e pensamentos, são instituições que ganham corpo através de cores, imagens, formas e sons. Os Museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes…
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Bibliografia:
BLANCO, A.G(1994)- Didáctica de l Museo, el descobrimento de los objectos. Madrid: Ediciones
de la Torre
CHOUGNET, Jean François et ali (2007) – Museu Berardo um roteiro.Thames e Hudson: London
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www.cultulgest.pt/derivas-20-04-2008
www.minom.icom.org-20-04-2008
wwwartecapital.net/perspectivas- 29-06-2008
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