segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

 

 

 Expressão Plástica na Infância:

O desenho é uma das formas de expressão mais antiga da humanidade, desde a pré-história, onde o homem através de figuras desenhadas nas paredes das cavernas manifestava ideias e pensamentos; como forma de escrita, quando tudo era praticamente iletrado e como representação gráfica de um objeto ou de uma ideia nos dias de hoje. Assim o desenho é a primeira grande obra do homem, por conseguinte, a primeira grande obra da criança.

Teorias ou estudos acerca do desenho das crianças só se verificam por volta de finais do séc XIX aquando psicólogos se debruçam sobre a originalidade do desenho infantil. Visto como um modo de expressão, o desenho constitui para a criança uma língua que possui vocabulário e respectiva sintaxe. É uma aprendizagem nata, e é um caminho que a criança deve percorrer. O desenho infantil mostra a maneira como a criança através das coisas vive os significados simbólicos que ela lhes atribui. O que ele não pode dizer dos seus sonhos e das suas emoções ele indica nos seus desenhos.

A arte infantil acontece devido a circunstâncias não só sociais mas também culturais que se repercutem na criança ao longo do seu desenvolvimento, tanto a nível motor como cognitivo. Considerados esquemas onde a criança procura dar significado transmitindo por vezes aquilo que ele pensa e quer dizer mas não consegue.

Tratando-se de uma atividade espontânea deve-se respeitar e instigar criança a desenhar. É certo que começam por rabiscos, mas quanto mais a criança desenhar, mais se aperfeiçoa e mais benefícios auferem ao nível da psicomotricidade, leitura e escrita, autoconfiança, exteriorização de emoções, sensações e sentimentos, comunicação, criatividade, etc.

Arnheim (1980), acerca do desenho infantil diz que este é uma forma de registo de objectos e formulação de pensamentos, é um esquema e como esquemas são representações simplificadas e generalizadas, o objecto é apresentado tal como a palavra. Por exemplo a palavra árvore significa qualquer tipo de árvore.

Cada criança é um mundo. Isso pode ver-se por exemplo se pedir-mos a um grupo de crianças para desenharem uma casa, elas vão ser todas diferentes. Aliás a este propósito Royer (1989) ( le dessin  dune  maison), diz que quando uma criança desenha uma casa, o seu desenho encerra uma série de significados(até porque a casa é um arquétipo  complexo que nos acompanha ao longo da vida): Traduz o que a criança pensa, deseja, o que a inquieta, o que a entristece e a deixa feliz. A casa é o símbolo de todas as “peles” que cronologicamente nos envolvem – seio materno, família, universo e a forma como se encaixam e ajustam.

O desenho infantil é sempre realista, a sua expressão é a relação ente o real e o imaginário. A criança tem o poder de convencionar, os seus desenhos tem o significado que ela lhes atribui.

Sendo um dos primeiros modos de expressão da criança, o desenho está associado ao prazer de deixar marcas. E um ano de vida basta para que a criança seja capaz de manter ritmos mais ou menos regulares a chamada fase da Garatuja. Nesta acção o prazer surge quando esta constata os primeiros efeitos visuais. Com o decorrer do tempo e com a interacção da criança com acto de desenhar, os movimentos rítmicos vão-se transformando em formas mais estruturadas cuja intenção por parte da criança é a de representar qualquer coisa. Em cada estádio de desenvolvimento da criança o desenho assume um carácter próprio. Mas apesar do desenho referente a cada estádio ser muito similar em todas as crianças, mesmo tendo em conta especificidades de cada uma, eles são todos diferentes porque lhes está subjacente uma vivencia, uma época, uma cultura, enfim um contexto.

Os primeiros rabiscos não têm como objectivo a representação. É para a criança uma actividade motora agradável, e quanto mais visíveis são os traços produzidos, maior é  o prazer  da criança , um prazer sensorial, prazer esse que permanece vivo no artista.

O círculo primordial é a primeira forma organizada que emerge dos rabiscos sem controlo. De facto a figura humana desenvolve-se geneticamente do “círculo primordial”. Há várias teorias: Os Freudianos defendem que a ideia deriva do seio materno, já Jung a atribui a mandala, e outros ao sol e à lua. Conhecido como o Girino é a primeira representação da figura humana. Representa a qualidade geral da “coisa”. De facto o circulo é a forma mais simples no meio pictórico, isto porque é simétrico a partir do centro em todas as direcções, e este circulo é uma invenção, uma conquista à custa de muito esforço, de muito treino, de muita experimentação.

Relativamente ao tamanho uma questão se impõe: Sendo os objectos iguais, porque é que as crianças tal como os artistas os representam com tamanhos diferentes do habitual? Aqui a hierarquia de valores poderá ser um factor. Já nos Relevos Egípcios os reis e os Deuses são muito maiores que os seus subalternos. Também no desenho infantil a criança desenha maior ou menor consoante a importância que essa “coisa” tem para ela.

Assim ao nível do desenvolvimento gráfico na criança definem-se quatro estádios:

a) Garatuja:  

 

                  1 - Desordenada

                  2- Controlada

                  3- Comentada

No primeiro momento da Garatuja (Desordenada) a criança não possui controlo motor sobre o meio riscador, ignora os limites do papel, mexe o corpo todo e os traços prolongam-se pelo chão e paredes. A figura humana não existe, ou se existe é de forma imaginária. Na garatuja controlada verifica-se uma coordenação viso-motora. As linhas da fase anterior fecham-se, formam círculos. Surgem os primeiros indícios de figura humana. Na garatuja comentada, o desenho é constituído de pequenos elementos gráficos, aos quais a criança atribui nomes ou acções.

 

1- Garatuja Desordenada                          2- Garatuja Controlada 
         
                                                                                                                                   3- Garatuja Comentada




 


 b) Pré-Esquemático

Este estádio surge com o fim da Garatuja, quando a criança descobre uma analogia entre o seu desenho e um objeto. A criança vai desenhando e comentando o que desenha. Pode aparecer a cor, mas não há relação com a realidade. Um grande salto é ser capaz de desenhar a figura humana com pernas, braços, pescoço e tronco. Organização espacial anárquica. As pessoas já têm cabelos, pés e mãos. Tendência para a antropomorfização que se estende até aos sete/oito anos.

 



 

 

 

 

 





c) Esquemático:

Já tem um conceito definido quanto à figura humana. Identifica as coisas não com objectos mas como acções. Desenha as formas idênticas, só as diferencia na cor. A criança impõe. Existe algo mais para além dos corpos. Desenha o que não se vê. Recorre às transparências para explicar o que está por dentro e por fora.



Rebate as figuras para as poder representar A visão das formas rebatidas é uma estratégia que ultrapassa o encobrimento de uma forma com a outra..

d) Realismo Visual

Subsistem, no início, muitas características do período esquemático – aproveitamento da base do papel, rigidez das figuras, figuras “tipificadas”, etc..

Aumento de pormenores na representação

Fase da descoberta da perspectiva e suas leis. A criança desenha o que vê, aumento de pormenores na representação e já tem a noção de profundidade Verifica-se um empobrecimento ao nível expressivo.


 

 Ao nível da Artes Plásticas, serve o desenho infantil, ou o entendimento dos diferentes estádios para de alguma  forma perceber que nas artes, o processo se desenvolve de uma forma análoga.

Assim o desenho infantil /primitivo, não deve ser tido ou visto como algo abaixo do padrão mas sim como um caminho que deve ser percorrido e no qual se estabelecem o fundamentos para uma realização mais madura, que se faz de uma forma cronológica e vagarosa. Também o artista em desenvolvimento não deve omitir etapas, porque se o não fizer, mais tarde ou mais cedo terá de as escalar.

E tal com a criança à medida que se verifica uma progressão lógica do simples para o complexo, se houver uma intervenção desfavorável por parte de terceiros (poderá ser o professor), no sentido de impedir que a concepção visual do artista se desenvolva de acordo com os seus princípios, poderá causar estragos. É como se obrigar-mos uma criança que ainda se encontra no período esquemático a fazer representações ao nível do realismo visual…

 

Referencias Bibliográficas:

Arnheim, Rudolf (1989) Arte e Percepção Visual. São Paulo: Livraria Pioneira Editora.

Meredieu, F. O desenho Infantil. São Paulo: Cultrix, 1974.

http://www.profala.com/arteducesp62.htm

 

A propósito do Desenho Infantil:

As crianças observam com uma agudeza que faz os adultos ficarem envergonhados”

(Arnheim)

 

...e esse entrelaçamento de visão e movimento acontece. A criança tem necessidade de muito movimento. A configuração, a extensão e a orientação dos traços são determinados pela construção mecânica do braço, é a grande conquista: O círculo primordial é primeira forma organizada que emerge dos rabiscos da criança. Não particulariza nenhuma direcção, é o padrão visual mais simples. De facto a figura humana desenvolve-se geneticamente do círculo primordial que originalmente representa a figura toda. O adulto também usa círculos ou esferas para representar qualquer forma, ou todas as formas ou nenhuma em particular. Relativamente à tal agudeza com que as crianças observam, e a concentração que depositam na elaboração do desenho, bem como o resultado pretendido, por certo que isso lhe causa prazer. Freud na teoria “ Principio do prazer” diz que os acontecimentos mentais são activados por questões desagradáveis e procuram um meio que leva à redução de tensão. O equilíbrio que se consegue na aparência visual é desfrutado como uma imagem das suas aspirações mais amplas. Ora, o universo tende para um estado de equilíbrio, e o homem procura equilíbrio em todas as fazes da sua existência, quer física quer mental. E o equilíbrio é a meta final de qualquer desejo a ser realizado. Nesta figura o equilíbrio pode estar mental pode estar na forma como as crianças viram realizado o seu desejo, e o equilíbrio físico na posição mais adequada por certo a mais confortável para que a dualidade mente e físico se conjuguem. Se tentar-mos contornar as silhuetas das duas crianças o resultado será qualquer coisa em forma de círculo. O desenho da criança da direita é diferente do desenho da criança do lado esquerdo, não querendo contudo dizer, que elas são de idades diferentes, no entanto, o que se verifica aqui são estádios de desenvolvimento mental diferentes. Embora Arnheim toma como modelo o desenho infantil, para abordar a questão da percepção, não devemos por isso pensar que só se aplica às crianças, aplica-se ao comportamento humano geral, Arnheim faz por isso uma analogia Ada arte infantil com a arte primitiva, comparando-a também à de um principiante de qualquer meio artístico.

Neste sentido, o desenho de crianças mais pequenas denota um controlo motor bastante incompleto, resumindo-se na maioria dos casos a linhas em ziguezague. Neste caso, essa fase já foi ultrapassada pela criança da esquerda. Esta faz linhas rectas e círculos. Aqui o desenho infantil funciona como um símbolo no sentido de substituir algo. Apenas representa as características gerais dos objectos. A criança desenha generalidades, desenha o que vê, tal como o homem do Paleolítico que representava o que via recorrendo ao contorno linear das formas. É que o cérebro humano tem uma grande capacidade visual de associação; aprende a identificar uma forma, reconhece-a facilmente vendo apenas o seu contorno ou silhueta.

Quanto ao desenho da criança do lado direito, esta denota uma idade mental mais avançada, o uso da vertical e horizontal: o círculo vai-se alongando nos dois sentidos. A criança usa a direcção vertical para distinguir alto e baixo, nesta fase o tamanho é em muitos casos usado para diferenciar opções afectivas. A direcção horizontal dirige-se para a direita ou esquerda, fechando a anterior verticalidade.

No que diz respeito à cor, esta não se apresenta de uma forma uniforme. A cor combina com a impressão geral dada pelas coisas. Mais uma vez e tal como no desenho, a criança pinta as coisas não como elas são mas sim como ela própria as vê – Realismo Intelectual. A criança impõe, constrói algo para além dos corpos, constrói não só a realidade externa mas também a interna.


Adélia Faia

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