Expressão Plástica na Infância:
O desenho é uma das formas de expressão mais antiga da humanidade, desde a pré-história, onde o homem através de figuras desenhadas nas paredes das cavernas manifestava ideias e pensamentos; como forma de escrita, quando tudo era praticamente iletrado e como representação gráfica de um objecto ou de uma ideia nos dias de hoje. Assim o desenho é a primeira grande obra do homem, por conseguinte, a primeira grande obra da criança.
Teorias ou estudos acerca do desenho das crianças só se verificam por volta de finais do séc.XIX aquando psicólogos se debruçam sobre a originalidade do desenho infantil. Visto como um modo de expressão, o desenho constitui para a criança uma língua que possui vocabulário e respectiva sintaxe. É uma aprendizagem nata, e é um caminho que a criança deve percorrer. O desenho infantil mostra a maneira como a criança através das coisas vive os significados simbólicos que ela lhes atribui. O que ele não pode dizer dos seus sonhos e das suas emoções ele indica nos seus desenhos.
A arte infantil acontece devido a circunstâncias não só sociais mas também culturais que se repercutem na criança ao longo do seu desenvolvimento, tanto a nível motor como cognitivo. Considerados esquemas onde a criança procura dar significado transmitindo por vezes aquilo que ele pensa e quer dizer mas não consegue.
Tratando-se de uma actividade espontânea deve-se respeitar e instigar criança a desenhar. É certo que começam por rabiscos, mas quanto mais a criança desenhar, mais se aperfeiçoa e mais benefícios auferem ao nível da psicomotricidade, leitura e escrita, autoconfiança, exteriorização de emoções, sensações e sentimentos, comunicação, criatividade, etc.
Arnheim (1980), acerca do desenho infantil diz que este é uma forma de registo de objectos e formulação de pensamentos, é um esquema e como esquemas são representações simplificadas e generalizadas, o objecto é apresentado tal como a palavra. Por exemplo a palavra árvore significa qualquer tipo de árvore.
Cada criança é um mundo. Isso pode ver-se por exemplo se pedir-mos a um grupo de crianças para desenharem uma casa, elas vão ser todas diferentes. Aliás a este propósito Royer (1989) ( le dessin dune maison), diz que quando uma criança desenha uma casa, o seu desenho encerra uma série de significados(até porque a casa é um arquétipo complexo que nos acompanha ao longo da vida): Traduz o que a criança pensa, deseja, o que a inquieta, o que a entristece e a deixa feliz. A casa é o símbolo de todas as “peles” que cronologicamente nos envolvem – seio materno, família, universo e a forma como se encaixam e ajustam.
O desenho infantil é sempre realista, a sua expressão é a relação ente o real e o imaginário. A criança tem o poder de convencionar, os seus desenhos tem o significado que ela lhes atribui.
Sendo um dos primeiros modos de expressão da criança, o desenho está associado ao prazer de deixar marcas. E um ano de vida basta para que a criança seja capaz de manter ritmos mais ou menos regulares a chamada fase da Garatuja. Nesta acção o prazer surge quando esta constata os primeiros efeitos visuais. Com o decorrer do tempo e com a interacção da criança com acto de desenhar, os movimentos rítmicos vão-se transformando em formas mais estruturadas cuja intenção por parte da criança é a de representar qualquer coisa. Em cada estádio de desenvolvimento da criança o desenho assume um carácter próprio. Mas apesar do desenho referente a cada estádio ser muito similar em todas as crianças, mesmo tendo em conta especificidades de cada uma, eles são todos diferentes porque lhes está subjacente uma vivência, uma época, uma cultura, enfim um contexto.
Os primeiros rabiscos não têm como objectivo a representação. É para a criança uma actividade motora agradável, e quanto mais visíveis são os traços produzidos, maior é o prazer da criança, um prazer sensorial, prazer esse que permanece vivo no artista.
O círculo primordial é a primeira forma organizada que emerge dos rabiscos sem controlo. De facto a figura humana desenvolve-se geneticamente do “círculo primordial”. Há várias teorias: Os Freudianos defendem que a ideia deriva do seio materno, já Jung a atribui a mandala, e outros ao sol e à lua. Conhecido como o Girino é a primeira representação da figura humana. Representa a qualidade geral da “coisa”. De facto o circulo é a forma mais simples no meio pictórico, isto porque é simétrico a partir do centro em todas as direcções, e este circulo é uma invenção, uma conquista à custa de muito esforço, de muito treino, de muita experimentação.
Relativamente ao tamanho uma questão se impõe: Sendo os objectos iguais, porque é que as crianças tal como os artistas os representam com tamanhos diferentes do habitual? Aqui a hierarquia de valores poderá ser um factor. Já nos Relevos Egípcios os reis e os Deuses são muito maiores que os seus subalternos. Também no desenho infantil a criança desenha maior ou menor consoante a importância que essa “coisa” tem para ela.
Assim ao nível do desenvolvimento gráfico na criança definem-se quatro estádios:
a)Garatuja:
1 - Desordenada
2- Controlada
3- Comentada
No primeiro momento da Garatuja (Desordenada) a criança não possui controlo motor sobre o meio riscador, ignora os limites do papel, mexe o corpo todo e os traços prolongam-se pelo chão e paredes. A figura humana não existe, ou se existe é de forma imaginária. Na garatuja controlada verifica-se uma coordenação viso-motora. As linhas da fase anterior fecham-se, formam círculos. Surgem os primeiros indícios de figura humana. Na garatuja comentada, o desenho é constituído de pequenos elementos gráficos, aos quais a criança atribui nomes ou acções.
1- Garatuja Desordenada 2- Garatuja Controlada 3- Garatuja Comentada
b) Pré-Esquemático
Este estádio surge com o fim da Garatuja, quando a criança descobre uma analogia entre o seu desenho e um objecto. A criança vai desenhando e comentando o que desenha. Pode aparecer a cor, mas não há relação com a realidade. Um grande salto é ser capaz de desenhar a figura humana com pernas, braços, pescoço e tronco. Organização espacial anárquica. As pessoas já têm cabelos, pés e mãos. Tendência para a antropomorfização que se estende até aos sete/oito anos.
c) Esquemático:
Já tem um conceito definido quanto à figura humana. Identifica as coisas não com objectos mas como acções. Desenha as formas idênticas, só as diferencia na cor. A criança impõe. Existe algo mais para além dos corpos. Desenha o que não se vê. Recorre às transparências para explicar o que está por dentro e por fora.
Rebate as figuras para as poder representar A visão das formas rebatidas é uma estratégia que ultrapassa o encobrimento de uma forma com a outra.
d) Realismo Visual
Subsistem, no início, muitas características do período esquemático – aproveitamento da base do papel, rigidez das figuras, figuras “tipificadas”, etc..
Aumento de pormenores na representação
Fase da descoberta da perspectiva e suas leis. A criança desenha o que vê, aumento de pormenores na representação e já tem a noção de profundidade Verifica-se um empobrecimento ao nível expressivo.
Ao nível da Artes Plásticas, serve o desenho infantil, ou o entendimento dos diferentes estádios para de alguma forma perceber que nas artes, o processo se desenvolve de uma forma análoga.
Assim o desenho infantil /primitivo, não deve ser tido ou visto como algo abaixo do padrão mas sim como um caminho que deve ser percorrido e no qual se estabelecem o fundamentos para uma realização mais madura, que se faz de uma forma cronológica e vagarosa. Também o artista em desenvolvimento não deve omitir etapas, porque se o não fizer, mais tarde ou mais cedo terá de as escalar.
E tal com a criança à medida que se verifica uma progressão lógica do simples para o complexo, se houver uma intervenção desfavorável por parte de terceiros (poderá ser o professor), no sentido de impedir que a concepção visual do artista se desenvolva de acordo com os seus princípios, poderá causar estragos. É como se obrigar-mos uma criança que ainda se encontra no período esquemático a fazer representações ao nível do realismo visual…
Referencias Bibliográficas:
Arnheim, Rudolf (1989) Arte e Percepção Visual. São Paulo: Livraria Pioneira Editora.
Meredieu, F. O desenho Infantil. São Paulo: Cultrix, 1974.
http://www.profala.com/arteducesp62.htm
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